O usurário e o garoto ladino

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O usurário e o garoto ladino

Mensagem  f ribeiro em Qua Jan 20, 2010 5:23 pm

Hoje deixo aqui uma conta.

Estava decidido.
- Amanhã, ponho a sela ao cavalo, e meto-me a caminho. E não há-de ser muito tarde! Também já é demais! Dois anos, e nem juro nem principal!? E não é assim tão pouco! Ah meus dois contos, quem mos dera de volta!
Encontrou-o no Santo Amaro e, - que sim! que logo que pudesse lá lhe pagaria!
Voltou a procurá-lo nos Gorazes. - Oh ti Bernardo!? Valha-me Deus! Faz-me tanta falta o dinheiro!
Que havia de lhe pagar logo que vende-se uns bois que trazia ao ganho. Pois sim, mas daí não passava.
Vinha ainda o sol lá para Zamora e deixava já para trás as últimas casas do povo.
O garrano, que não visitava ferreiro desde de mudara de dono, e não comia ração de centeio desde as festas do Nazo, marchava ainda mais contrafeito que o cevado em dia de matança.
Ao final da manhã avistava os primeiros cardanhos da aldeia do relapso.
Logo lhe indicaram a casa e chegou-se sem se anunciar, não fosse espantar a presa.
Subiu as escadas da varanda sem chamar. E só defronte do postigo entreaberto, já com a mão na aldrava da porta, chamou:
- Oh ti Bernardo?
Anunciou-se e não esperou resposta. Empurrou a porta e foi caminhando na entre-casa.
- Quem é!
Um rapazito assomou da cozinha deixando ver o lar. Na mão um avantajado garfo de Palaçoulo. Teria, quanto muito, nove anos. O olhar vivo, denotava criatura ladina.
- Olha lá, o teu pai? - perguntou com voz açucarada evitando assustar o fedelho.
- O meu pai não está – respondeu o garoto sem revelar acanhamento ou medo.
- Pois sim meu homem! Mas sabes dizer-me onde foi, e se demora?
- Oh meu senhor, o meu pai foi semear um carrascal e vai demorar! – volveu afoito o pequeno.
- Um carrascal!?
- Sim um carrascal. Sabe meu senhor, nós temos uma dívida muito grande! Devemos muito dinheiro a um homem de puríarriba, que anda sempre a rogar o meu pai para que lhe pague.
Não se deu por achado o usurário, mas anteviu um mau fim para a jornada.
- É que quando o carrascal crescer, – continuou o garoto - os rebanhos de ovelhas e carneiros deixam lá sempre ficar alguma lã. Apanhamo-la, que está no que é nosso, e vendemo-la. E é assim que vamos pagar a dívida ao tal homem de terras de Miranda.
Tarde ou nunca futurou o agiota de si para si.
Atarantado ainda perguntou ao garoto:
- E tu meu rapaz, o que fazes em casa?
-Eu?! Olhe, vê aquela panela ao lume? Está a cozer feijões. Os feijões descem e sobem na panela. Com este garfo espeto* os que vêm, como-os e espero pelos que hão-de vir para lhe fazer o mesmo.
- Então vou-me andando antes que me espetes a mim!
Montou o garano e foi-se, sem juros nem principal, nem ideia de os receber.
Ouviu ainda o pigarro, atirar-lhe do alto da varanda:
- Olhe lá, o cavalo é seu?
_____________________
* termo que pode ser usado com grafias e significados diferentes.

Bem haja quem ma contou.
Um abraço
f.ribeiro

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O usurário e o garoto ladino

Mensagem  Xo_oX em Ter Jan 26, 2010 6:31 am

Bela história fRibeiro... ficamos à espera de mais.
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Boa conta

Mensagem  AntonioM em Qua Jan 27, 2010 2:04 pm

Com o estilo que já nos habituaste, mais uma vez nos transportas para o imaginário da nossa terra.

Parabéns Francisco

António Magalhães

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Mensagem  Carvalho em Dom Fev 07, 2010 11:03 am

Aix, que sim seria de guicho o pigarro. Parabéns, ó Xico, por mais esta bela conta. Agora vê lá se na próxima metes lá estas que, por incúria minha ou desatenção, não as encontrei no nosso Vocabulário:

Amordiscar
Bacatela
Brocha
Cacha
Canchada
Cardas
Carunho
Escarabunha-cega
Escorchar
Escrito
Faramalhas
Ferrunga
Grincha
Mãozada
Molete
Peco
Raça
Retouçar
Sentalho
Sertã
Tacha
Teresa-põe-as-mãos.
Se já lá estiverem num fai mal Smile

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Re: O usurário e o garoto ladino

Mensagem  AntonioM em Qua Jun 23, 2010 12:27 pm

Acabei de ler o livro " A Vida num Sopro" do José Rodrigues dos Santos e fiquei assim a modos que um pouco desiludido!
Parte da acção passa-se em Bragança e nos Cerejais de Alfândega da Fé e o JRS usa termos um pouco chochos a parecerem que são da da nossa zona.

De JR Santos tinha lido "O Codex 632" que recomendo e tb "Conversas de Escritores" que também tinha gostado.

Parece-me que devíamos aconselhá-lo a ver o nosso glossário para ver se arrebitava aquelas orelhas! Ele que tem ascendentes transmontanos - penso que da Adeganha - Moncorvo - e sai-se com cada uma! Eu pelo menos não conheço:
Lambiteiro; fisquinho; peleiroso; gafar; panjelíngua ...

Tinha sido tão fácil ter perguntado! Ou nos Cerejais falam com outras palavras!

A Magalhães

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Re: O usurário e o garoto ladino

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